terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Romário de Souza Faria - O Baixinho

É uma lenda porque: Com todo respeito as outras lendas, se não fosse por este cara, com certeza eu não teria a mesma paixão pelo futebol que tenho hoje.

(Essa lenda é diferente. Exitei muito tempo para escrever sobre ela pois provavelmente me deixaria levar pelo fanatismo e pela idolatria ao mesmo. Mas como preciso retomar o blog e tirar a poeira dele, ninguém melhor para comerçar, pois não?)

Eu era uma criança de 6 anos em 1994. Não entendia e nem me interessava muito por futebol. Minha vida era simples e se resumia a acordar de manhã, assistir meus desenhos, ir a escola, voltar e brincar com meus bonecos. Mas não podia deixar de notar o quanto todos se movimentavam e se animavam com a Copa do Mundo nos Estados Unidos. Ruas pintadas de verde e amarelo, luvinhas da vitória com o "V" sendo vendidas, bolas de futebol pra todo lado... nem parecia que um ano antes as pessoas ainda estavam apreensivas com o ultimo jogo que restava pelas eliminatórias, contra o Uruguay, um adversário tradicionalmente dificil e que já causara muitos problemas ao Brasil no passado.

O povo estava tenso, já que a seleção brasileira, dirigida na época por Carlos Alberto Parreira não convencia e nem agradava os torcedores e o pior, precisava vencer essa essa partida de qualquer maneira para se classificar para a Copa. Muito criticado, Parreira não teve outra opção a não ser ouvir o clamor popular, que pedia a convocação de um jogador com quem o técnico e seu assistente Mario Jorge Lobo Zagallo, haviam se desentendido. E este jogador era Romário, atacante do Barcelona, craque do time e que há muito era pedido pelo povo brasileiro como titular na seleção. E todos sabemos como foi esse jogo...

Ali começava meu facínio e minha admiração por esse jogador. Passei a me informar das maneiras que eram possiveis na época (para uma criança). Pelos lances e noticias da TV Cultura, assistia-o fazer diversos gols pelo Barcelona. 

Por fim chega a Copa dos Estados Unidos. Lembro-me bem que antes do embarque da seleção, uma repórter o entrevistou e ele garintiu: "Eu vou trazer aquela taça pro Brasil.". Percebia então como esse jogador era diferente. "Falastrão", não demonstrava medo da responsabilidade que o Brasil tinha naquela Copa. Afinal, já se passavam 24 anos desde o ultimo titulo da seleção em uma Copa. Grandes equipes já haviam falhado nessa missão. E onde tantos outros gênios falharam juntos, Romário, sozinho, triunfou brilhantemente. Até aquele ano diziam que apenas dois jogadores foram capazes de "ganhar uma Copa do Mundo sozinho", sendo eles Garrincha pelo Brasil em 62 e "Don" Diego Maradona em 1986 pela Argentina. Pois em 94, o mundo viu Romário "imitar" essas duas grandes lendas e ser o principal destaque pela campanha vitoriosa do Brasil, participando de praticamente todos os gols da equipe, hora fazendo-os ou hora dando passes, assistências, sofrendo faltas e penaltis (e até desviando da trajetória de um gol de falta).

No ano seguinte voltou ao Brasil, para formar o "ataque dos sonhos" no Flamengo, deixei de acompanhá-lo um pouco, mas ainda sabia de sua importancia para o país e sempre ouvia que o Baixinho se sagrava artilheiro de mais algum torneio, seja por seus clubes ou pela seleção. 

Quando "cresci", já com mais discernimento, tive a honra de presenciar outros grandes momentos de sua carreira. O vi ser aplaudido pela torcida do Corinthians após marcar dois gols e mandar a mesma se calar em pleno Pacaembu, em 1999. O vi marcar 3 gols e comandar a virada do Vasco na Copa Mercosul, após sua equipe estar perdendo para o Palmeiras por 3 x 0 e com um jogador a menos. Me surpreendi quando marcou 73 gols numa temporada no Brasil, no ano 2000, e ser artilheiro do Campeonato Brasileiro de 2005 com quase 40 anos. Lamentei seu corte na Copa de 98 e reclamei ainda mais de sua ausência na Copa de 2002. Vi por diversas vezes ele prometer gols ou jogadas espetaculares antes de partidas grandes, importantes e decisivas, e pásmen, cumprir tudo que havia dito. Me emocinei quando cumpriu outra promessa, dessa vez feita a seu pai, ao vestir a camisa e se tornar dirigente do clube do coração de "Seu Edevair", o América-RJ.

 E sem nenhuma vergonha, digo que comemorei, vibrei e chorei no dia do seu milésimo gol. Gol este que selava sua principal promessa, feita em 1988, quando ainda era um jovem que não sabia quão grandioso seria seu futuro.



Romário encantou gerações de admiradores do futebol por todo o mundo. Desde pessoas mais velhas, que antes haviam visto Pelé, Di Stefano, Puskas, Cruyff e outros, quanto jovens e crianças como eu era, jornalistas e jogadores e treinadores contemporaneos. Já foi dito por muita gente que sua eficiência e posicionamento dentro da área foram superiores até as de Pelé (e isso dito por quem viu ambos jogar). Na Holanda é tido como o maior idolo da história do PSV, onde possui uma estatua semelhante a que tem em São Januário. E na Espanha, mesmo com as gerações recentes de Messi, Ronaldinhos e Rivaldo, sempre é lembrado como um dos maiores jogadores do clube. E tudo isso ele conseguiu sem ser um "atleta", como ele mesmo bem definiu. Ai cabe a eterna duvida para muita gente: se ele foi o que foi sem levar treinamentos a sérios, conciliando uma agitada vida norturna à carreira de jogador, como teria sido se tivesse sido um "atleta", que se preparasse e chegasse cedo aos treinamentos, etc..? Teria antecipado seu milésimo gol? Chegaria mais perto da marca de gols de Pelé? Conquistaria mais do que conquistou?

Em meio a frases polêmicas, vida noturna, confusões dentro e fora de campo e uma carreira irretocável e respeitada pelo mundo até hoje, resolveu recentemente iniciar uma vida politica. E como deputado, mais uma vez vem surpreendendo a todos, como provavelmente o politico mais atuante na câmara dos deputados, já planejando uma candidatura para a prefeitura do Rio de Janeiro num futuro próximo. 

Com toda essa carreira e história, tudo que tenho a dizer é obrigado, Romário.

Obrigado por me apresentar ao futebol e por me tornar tão fanático por esse esporte. Obrigado por me mostrar como nunca fugir ou desistir em momentos decisivos. Obrigado por me mostrar que nenhuma meta é impossivel, não importa quanto tempo dure. E muito obrigado por mostrar como é possível honrar palavras e promessas, sem nenhum medo de expor sua opiniões.


Frases sobre ele:

- "Desculpe, mas no meu time os melhores jogam com a 10". - Johan Cruyff, técnico do Barcelona de 88 a 94, quando Romário pediu para usar a camisa 11 da equipe Catalã.

- "Dentro de campo, foi um atacante acima da média. Ao encerrar a carreira, o futebol perdeu um artista da bola e um jogador que não tinha vergonha de dizer o que pensava.Esse é o papel de todo cidadão, especialmente de um ídolo" - Paulo Cesar Vasconselos, diretor de redação do SporTV.

- "O jogador mais interessante com quem já trabalhei foi Romário. Era o tipo de cara que fazia gols com facilidade. Antes de partidas cruciais, quando se está um pouco nervoso, ele chegava para mim e dizia "coach, tranquilo, Romário vai marcar e nós vamos ganhar". E ele realmente marcava. Nem todas as vezes, mas em oito de dez jogos como aqueles ele marcaria o gol da vitória." - Guus Hiddink, técnico do PSV entre 88 e 92.

- “Vindo sabe-se de que região do ar, o tigre aparece, dá seu bote e se esfuma. O goleiro, preso na sua jaula, não tem tempo nem de piscar. Num lampejo, Romário mete seus gols de meia volta, de bicicleta, de voleio, de trivela, de calcanhar, de ponta ou de perfil. [...] Nasceu na miséria, na favela do Jacarezinho... Subiu à fama sem pagar os impostos da mentira obrigatória: esse homem muito pobre se deu sempre ao luxo de fazer o que queria, freqüentador da noite, festeiro, e sempre disse o que pensava sem pensar no que dizia”. - Eduardo Galeano, crônista uruguaio.

- "O melhor de todos (os brasileiros) era o Romário. Melhor que qualquer outro. Para mim, o melhor jogador do Brasil na história.[...] Muitos brasileiros fizeram parte da minha vida, como Ronaldo, Rivaldo, Giovanni. Mas Romário foi o top dos tops." - Hristo Stoichkov, maior jogador da história da Bulgaria e companheiro de ataque de Romário no Barcelona.

- "Grandissimo. Nunca vi até hoje alguém com um faro de gol tão bom. Dentro da área nunca perdia uma chance." - Roberto Baggio, grande idolo italiano e adversário de Romário na final da Copa de 94. 

- "Quando cheguei ao Vasco, Romário foi logo dizendo: "Você sabe que eu não gosto de treinar de manhã, só a tarde, estamos entendidos!? "Eu disse: vamos treinar pela manhã e ele reclamou: "Puta merda!" Sempre admirei a franqueza dele e seu compromisso com a lealdade. Era direto; quando descordava de alguma coisa, falava pela frente". - Joel Santana, atual técnico do Flamengo.

- "Eu te amo!!!" - Bebeto após marcar o gol da classificação do Brasil contra os Estados Unidos na Copa de 94, com assistência de Romário.